Recentemente o País pôde ver, ao vivo, a morte de uma pessoa durante uma situação de tomada de reféns, acontecida em Lisboa.
Como consequência, opiniões diversas vieram a superfície. Basta ver os comentários dos jornais on-line.
Curiosamente os primeiros comentários, até de pessoas destacadas, realçavam como exemplar a actuação da polícia. Com o tempo a maioria dos comentários passou apresentar uma opinião oposta.
É interessante verificar que as primeiras mostravam um fraco processo de reflexão sobre o assunto e comentários exacerbados, muitas vezes reflectindo profundos sentimentos de xenofobia.
Por outro lado uma segunda vaga de opiniões, mostrava ter havido um processo de interpretação mais racional dos factos , em que a componente humanista pesava agora de forma significativa.
Deixando de parte considerações técnicas sobre o assunto, que poderia legitimamente fazer e que contrariariam a opção tomada, preocupa-me o conceito que lhe está subjacente.
Pintada com a cor que seja, na verdade, alguém optou pela "pena de morte".
Durante uma situação como esta, a ameaça à vida é permanente, quer seja intencional, quer seja acidental. As armas estão presentes, as pessoas estão presentes, a situação é natural e constantemente de risco.
Nenhum dos comportamentos que se podem observar, por parte dos assaltantes é anormal, muito pelo contrário.
Para quem tem conhecimento dos processos emocionais, que se desenvolvem durante uma qualquer tomada de reféns, é sabido que o momento em que os assaltantes foram alvejados, é um momento "normal" nestas situações e perfeitamente gerível, por quem sabe fazê-lo, sem tirar a vida a uma pessoa.
Mas mais perigosas são, inevitavelmente, as consequências do que aconteceu.
Se contavam que os assaltos diminuíssem por causa de terem morto uma pessoa, já puderam ver que os assaltos continuam.
O pior de tudo, é que toda a gente viu.
Numa próxima situação, quem estiver "lá dentro", já sabe que pode ser alvo de um tiro cobarde e, isto quer dizer mesmo “toda a gente”; tanto os assaltantes como os reféns. Como vão reagir essa pessoas, sabendo que a qualquer momento podem ser mortos? Os tiros não foram certeiros, nem nunca poderá haver certeza de que o serão. Por trás duma arma está sempre um ser humano e “errar é humano”.
Ensinou-nos o Kaiso (o fundador) princípio importantes para os momentos difíceis da vida; “vive e deixa viver”, “nunca desistir”, “força e compaixão não são coisas diferentes”.
Se fosse um aluno de Shorinji Kempo a tomar a decisão de matar ou não matar, ela seria seguramente diferente e todos iriam para casa com a consciência de terem dado o seu melhor.
A vida já podia ter ensinado, a todos, que violência gera violência.
O fogo não apaga o fogo, a água sim. São elementos contrários que se equilibram.
Em conclusão, violência + violência só pode ser = BRUTALIDADE IRRACIONAL.
“A pessoa, a pessoa, a pessoas. Tudo depende da qualidade da pessoa.”
Doshin So, Fundador do Shorinji Kempo
(Setembro 03, 2008)